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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

Month

December 2016

O cinza dos olhos

Por mais que abra os olhos
Ainda vejo quadros sombrios
De um monocromático cinza mórbido
Que lentamente arrasa meus brios

Que tempos são esses,
Onde a vida grita por vida,
Onde a vida grita por morte?

Tinha poucos anos
E eu não a conhecia
Era cheia de enganos
E em silêncio vivia agonia

Mudaram o mundo?
Ou meus olhos mudaram?

É ardil perspectiva
De uma tristeza esquiva
Quando minha alma espia
De outra alma a melancolia

Dividimos o pranto
Que não torna menos pesado
O lânguido manto
Que qualifica nosso fado

Verdadeira enfermidade latente
Essa tenaz desolação
De sentir tamanha dor impertinente
Em meu pequeno coração

E eu sinto como ninguém
E ninguém sente como eu sinto
Dói.

(2012)

Peleja do desejo

Com que coragem sorrimos
Um ao outro em desafio
À beira de nós mesmos
Segurando a moralidade por um fio

Fino

Como a lascívia agonizante
De Imaginar-te concreta
Descobrir-te serena
Tecendo teu querer
E me concebendo fantasia

Desejando nossas bocas
Devorando à vontade
A vontade das vontades

Entregando meu fogo
Em pira rasa
Queimando tua pele
Contra meu corpo
Perdendo-me em tuas águas
Te amando em tormenta
E desaparecendo com o vento

(12/2016)

()

Desconheço a vida

E busco certezas

Nas dimensões incertas

 

Minha voz é sempre

Vaga no silêncio

 

Eu sou deus de deus

Senhor do Vazio

 

Vossa Inexistência,

Que descalça contra o vento

Caminha sobre lixas

Fazendo do lamento

Cópia torta da

Cópia da cópia

 

Eu nego,

Tudo ou nada

É tudo e nada

Quem me busca

Se perde

E acha

 

Eu sou

 

(2013)

O Campo das Possibilidades

 

Depois de muito o encarar
Decidi-me a atravessar
O morro das lamentações

Passado o penoso exercício de subida,
O sinuoso caminho de descida,
Finalmente respirei os ares
Do fantástico Campo das Possibilidades

 

Lá, vi o brilho apagado
Dos futuros em construção
Que poderiam ter sido
E que não foram

Rápidos, por mim passaram
Vários amores desacreditados
Que muito embora fragilizados
Em tal terra não se vão

Crianças aqui nascidas
Riem-se das flores incontidas
Que no Campo desabrocharam

Tantas e tantas flores

E sob um céu arco-íris
Voam tristes
Erros inconcebidos
Que pelo medo confundidos
Com risco inconsequente

À Ignácio de Loyola Brandão

Eis que a orelha

(de um certo renegado de mão furada)

Passou a crescer anomalamente.

 

Ao menos alimento,

(por um bom tempo)

Não faltou
àqueles debaixo da ponte.

À contragosto

 

Os cabelos encaracolados da almôndega

Empapados num molho de tomate fresco,

Os pedaços de carne

Moída

Espalhados ao longo do meio fio

 

Enquanto a macarronada esfria,

Outro prato

Anônimo

Fora servido aos olhos

Famintos

 

Quem tu viu?

Quem tv?

A desgraça

O pedido compulsório do menu

A história de uma senhora

Uma velha senhora

Contou-me uma história

Das mais fantásticas.

Disse-me ela

Que ainda ontem

Era menina.

Brincava com bonecas,

Cantava cantigas de roda

E cozinhava barro

Com as receitas mais especiais.
Ao meio dia,

Uma paixão pueril

Negou-a as brincadeiras,

A comida,

O sono

E o sossego.
Com o entardecer,

Deixou-a

Uma parte da menina.
Em seu lugar,

Uma mulher

Então notava

Que seus minutos-anos

Esvaiam-se por entre dedos,
Que já não eram melados

De barro e de alegria.

 

Na noite,

A felicidade e lucidez

De suas mãos enrugadas

Tornaram-se lembranças

De horas atrás.
E agora,

Não sei se esse dia de anos

Deu-se por efemeridade da vida

Ou peça da memória.

 

[fontedaimagem]

O chão e corredor

cansado
o chão encara
o corredor caído

depois de tantos passos
o suor tornara-se água
pura e fria
que escorre sobre sua superfície
como que batizando um terreiro de pecados
revolvendo o pudor à terra maltratada
pelos passos pesados
de um homem mais leve
(como se o passado houvesse passado nas passadas
para os prosaicos fundamentos terrestres)

o corredor
cansado e caído
também encara o chão
agradecendo-o
por não o ter abandonado
(mesmo sem querer)
quando
em momento que desamparado em suas aflições
esgotado em suas faculdades

em momento de problema insolúvel

concluíra
que a solução cabível
requeria alguns quilômetros

Correu

o chão o acompanhou
ainda que corresse com o vento
—mesmo ao atravessar o céu e suas nuvens—
sempre abaixo dele
para que suas mãos sujas
(embora rudes)
fossem o amparo
da mais terrível queda
da qual toda vida é passível

porque
conquanto caísse na mais profunda cavidade da Terra
ou se o cúspide da lança mais afiada fosse seu destino irremediável
sua mais extensa desgraça
sempre foi

o ermo

(2013)

Menina de outubro,

Teu novembro chega

Carregado de lágrimas

Imaturas.

O forro rosado

De jambo arraigado

É o tapete tranquilo

Onde repousa teu

Sofrimento

(2015)

 

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