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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

À contragosto

 

Os cabelos encaracolados da almôndega

Empapados num molho de tomate fresco,

Os pedaços de carne

Moída

Espalhados ao longo do meio fio

 

Enquanto a macarronada esfria,

Outro prato

Anônimo

Fora servido aos olhos

Famintos

 

Quem tu viu?

Quem tv?

A desgraça

O pedido compulsório do menu

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A história de uma senhora

Uma velha senhora

Contou-me uma história

Das mais fantásticas.

Disse-me ela

Que ainda ontem

Era menina.

Brincava com bonecas,

Cantava cantigas de roda

E cozinhava barro

Com as receitas mais especiais.
Ao meio dia,

Uma paixão pueril

Negou-a as brincadeiras,

A comida,

O sono

E o sossego.
Com o entardecer,

Deixou-a

Uma parte da menina.
Em seu lugar,

Uma mulher

Então notava

Que seus minutos-anos

Esvaiam-se por entre dedos,
Que já não eram melados

De barro e de alegria.

 

Na noite,

A felicidade e lucidez

De suas mãos enrugadas

Tornaram-se lembranças

De horas atrás.
E agora,

Não sei se esse dia de anos

Deu-se por efemeridade da vida

Ou peça da memória.

 

[fontedaimagem]

O chão e corredor

cansado
o chão encara
o corredor caído

depois de tantos passos
o suor tornara-se água
pura e fria
que escorre sobre sua superfície
como que batizando um terreiro de pecados
revolvendo o pudor à terra maltratada
pelos passos pesados
de um homem mais leve
(como se o passado houvesse passado nas passadas
para os prosaicos fundamentos terrestres)

o corredor
cansado e caído
também encara o chão
agradecendo-o
por não o ter abandonado
(mesmo sem querer)
quando
em momento que desamparado em suas aflições
esgotado em suas faculdades

em momento de problema insolúvel

concluíra
que a solução cabível
requeria alguns quilômetros

Correu

o chão o acompanhou
ainda que corresse com o vento
—mesmo ao atravessar o céu e suas nuvens—
sempre abaixo dele
para que suas mãos sujas
(embora rudes)
fossem o amparo
da mais terrível queda
da qual toda vida é passível

porque
conquanto caísse na mais profunda cavidade da Terra
ou se o cúspide da lança mais afiada fosse seu destino irremediável
sua mais extensa desgraça
sempre foi

o ermo

(2013)

Menina de outubro,

Teu novembro chega

Carregado de lágrimas

Imaturas.

O forro rosado

De jambo arraigado

É o tapete tranquilo

Onde repousa teu

Sofrimento

(2015)

 

A colherada

Os olhos maiores que o rosto

A colher maior que a boca

O sabor amargo do desgosto

A minha voz, a tua voz, rouca

 

O rosto doce que gosto

Engolido pelo ódio

Agridoce, tóxico,

Em uma grande colherada

 

Uma colher que farta

Mas não sacia

Uma colher de realidade

 

(2014)

 

Nota histriônica

Eu sou o mocinho
De um filme particularmente longo.
Que em momentos aparenta ser uma fina tragédia,

Senão esfacela-se em uma comédia de gosto duvidoso.
Devo ser palhaço de cinema.
Procuro câmeras
E não as vejo.
Às vezes espero que surjam nas esquinas,
E definam a próxima cena,

A próxima piada.

Mas o empenho mediúnico
Em manter o sigilo das filmagens
Supera minhas capacidades de detetive hollywoodiano.
Sigo em minhas trabalhosas trapalhadas.
Chorando de rir,
Rindo de chorar,
Onde alegria e pranto se disfarçam,
Enquanto os créditos não sobem.

Aquilo que dizem dos palhaços:
Os mais engraçados, são também os mais tristes.

(2011)

 

Wer

Vejam que falo,
Ou divago
(vagando),
Geralmente sobre:
Amor;
Felicidade;
Existência;

E amor.

Pois sou poeta de ausências,
E reclamo o que me falta.

Vivo uma vida
De uísque
E marshmallows,
De inexistência
E incoerência,
Em que sempre restam
Menos de um dedo de um copo.

Quem me dera ser
Quem queria:

Macio,
Maduro,
Provado (e aprovado),
E premiado.

Como um uísque americano.

 (2012)

 

Grande

Fora do reduto de tristezas,
Entre os automóveis
E os sóis do asfalto,
Uma mulher
Grande de idade,
E de enfermidades da idade,
Chora por sua vida
De grande e triste.

Vida triste
De ser carregada em vida.

Seu orgulho,
Em soluços
E Aos poucos,
Dá lugar à conformidade,
Na tristeza de esperar
A pequenez e leveza derradeiras.
De ser carregada,
Finalmente,

Para fora,

Para longe,
Nas mantas negras do anjo.

(2011)

 

Rosa

Quem dera
Decidisse o tempo
Privar tal rosa
Do desmantelamento
Que goza dos vivos.

Mas este,
Mais que qualquer outro,
É um operário cipreste
De anelo morto.
Que,
Incansavelmente,
Empenha seu trabalho
No contínuo retalho
Da existência torrente.

Sem as preocupações,
Vãs e tolas,
Dos que se preocupam
Por ele,
Por rimas,
Por suas vidas
Ou por rosas.
(2011)

 

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