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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

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Amor

O Erro

Acreditei que os pedaços
Dentro do peito embargados
Serviriam de esmola etérea
Para os amores do porvir

Deixei-me acreditar 

Que os cacos do que fomos
Ainda serviriam
Para provar o que somos
Ao que viesse existir 

Já não há nós
Nem lembranças vivas
Nos ventos mortos
Da memória

Às velas rasgadas do tempo
(Pelos fragmentos finos do erro)
Pouco importa a vontade

Na calmaria latente
Aguardo a balsa atrasada
Com minha passagem já comprada
no guichê da luxúria

 

(12/2016)

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Eu sou cão e você

é a raposa

da estória fantástica

agora ficção realizada

 

o cão destinado

a todas as presas

capturar

a raposa destinada

a jamais ser

capturada

 

paradoxalmente petrificados

meus olhos líticos

condenados
à vê-la
à distância das estrelas

nossa proximidade

negada inexoravelmente

pela ordem celeste

e pelas diretrizes lógicas

que defloram

minha existência e a sua

em concreto

(2013)

Peleja do desejo

Com que coragem sorrimos
Um ao outro em desafio
À beira de nós mesmos
Segurando a moralidade por um fio

Fino

Como a lascívia agonizante
De Imaginar-te concreta
Descobrir-te serena
Tecendo teu querer
E me concebendo fantasia

Desejando nossas bocas
Devorando à vontade
A vontade das vontades

Entregando meu fogo
Em pira rasa
Queimando tua pele
Contra meu corpo
Perdendo-me em tuas águas
Te amando em tormenta
E desaparecendo com o vento

(12/2016)

O Campo das Possibilidades

 

Depois de muito o encarar
Decidi-me a atravessar
O morro das lamentações

Passado o penoso exercício de subida,
O sinuoso caminho de descida,
Finalmente respirei os ares
Do fantástico Campo das Possibilidades

 

Lá, vi o brilho apagado
Dos futuros em construção
Que poderiam ter sido
E que não foram

Rápidos, por mim passaram
Vários amores desacreditados
Que muito embora fragilizados
Em tal terra não se vão

Crianças aqui nascidas
Riem-se das flores incontidas
Que no Campo desabrocharam

Tantas e tantas flores

E sob um céu arco-íris
Voam tristes
Erros inconcebidos
Que pelo medo confundidos
Com risco inconsequente

A colherada

Os olhos maiores que o rosto

A colher maior que a boca

O sabor amargo do desgosto

A minha voz, a tua voz, rouca

 

O rosto doce que gosto

Engolido pelo ódio

Agridoce, tóxico,

Em uma grande colherada

 

Uma colher que farta

Mas não sacia

Uma colher de realidade

 

(2014)

 

Rosa

Quem dera
Decidisse o tempo
Privar tal rosa
Do desmantelamento
Que goza dos vivos.

Mas este,
Mais que qualquer outro,
É um operário cipreste
De anelo morto.
Que,
Incansavelmente,
Empenha seu trabalho
No contínuo retalho
Da existência torrente.

Sem as preocupações,
Vãs e tolas,
Dos que se preocupam
Por ele,
Por rimas,
Por suas vidas
Ou por rosas.
(2011)

 

Vestígio

Anteontem, uma brasa

Atormentou-me o punho esquerdo

E o resto do corpo inteiro

Com uma raiva esfumaçada.

Se restasse,

Ainda que vestígio,

Do prazer usufruído,

Seria bom.

Mas até as cinzas

Já se foram,

Carregadas

Pelo vento do tempo.

desse amor,

só restou uma prisca abandonada.

 

18/10/2011

 

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