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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

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Contexto

Rios turvos

Atenta contra o seu amarelo braço magro

Enchendo de lamúria e alívio o próprio canto

Ardente sangue rubro escorre dele enquanto

Decalca o seu impróprio e amorfo caráter egro

 

Contrária à carne viva e escura do homem negro

Atina a faca sua afoita ponta um tanto

Remédio e vício para assim findar o encanto

Quebranto que consome sua vida em logro

 

Usando a veste pobre, encobre seu ato escuso

Remorso torna intenso o peso do segredo

Ação funesta feita —afeita— prossegue obtuso

 

Forçando sua face, pávida e ímpia, em medo

Enxuga rios dele mesmo e padece iluso

Enquanto gotas fazem dessa dor enredo

 

(2014)

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Suburbia

O som de poucos carros

Rasgando o ar,

Embalado na melodia triste

De um aspirador de pó distante,

Rege a orquestra

De ganidos agudos

Dos cães que esperam

 

Já se vão as primeiras bicicletas

Carregadas de anseios

E receios

Quando não de água

Ou gás

 

Também já passam das seis

E todos são livres

Para buscar os pães

E perseguir a felicidade

Afogados na negação

E conforto do cárcere

 

O elevar de vozes

Dos mínimos seres condôminos

Abafa-se

Em meio à epifania de vida

Do Subúrbio

 

Prova inegável

De que existe vida submersa

 

(2012)

O cinza dos olhos

Por mais que abra os olhos
Ainda vejo quadros sombrios
De um monocromático cinza mórbido
Que lentamente arrasa meus brios

Que tempos são esses,
Onde a vida grita por vida,
Onde a vida grita por morte?

Tinha poucos anos
E eu não a conhecia
Era cheia de enganos
E em silêncio vivia agonia

Mudaram o mundo?
Ou meus olhos mudaram?

É ardil perspectiva
De uma tristeza esquiva
Quando minha alma espia
De outra alma a melancolia

Dividimos o pranto
Que não torna menos pesado
O lânguido manto
Que qualifica nosso fado

Verdadeira enfermidade latente
Essa tenaz desolação
De sentir tamanha dor impertinente
Em meu pequeno coração

E eu sinto como ninguém
E ninguém sente como eu sinto
Dói.

(2012)

()

Desconheço a vida

E busco certezas

Nas dimensões incertas

 

Minha voz é sempre

Vaga no silêncio

 

Eu sou deus de deus

Senhor do Vazio

 

Vossa Inexistência,

Que descalça contra o vento

Caminha sobre lixas

Fazendo do lamento

Cópia torta da

Cópia da cópia

 

Eu nego,

Tudo ou nada

É tudo e nada

Quem me busca

Se perde

E acha

 

Eu sou

 

(2013)

À Ignácio de Loyola Brandão

Eis que a orelha

(de um certo renegado de mão furada)

Passou a crescer anomalamente.

 

Ao menos alimento,

(por um bom tempo)

Não faltou
àqueles debaixo da ponte.

À contragosto

 

Os cabelos encaracolados da almôndega

Empapados num molho de tomate fresco,

Os pedaços de carne

Moída

Espalhados ao longo do meio fio

 

Enquanto a macarronada esfria,

Outro prato

Anônimo

Fora servido aos olhos

Famintos

 

Quem tu viu?

Quem tv?

A desgraça

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