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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

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Dor

Rios turvos

Atenta contra o seu amarelo braço magro

Enchendo de lamúria e alívio o próprio canto

Ardente sangue rubro escorre dele enquanto

Decalca o seu impróprio e amorfo caráter egro

 

Contrária à carne viva e escura do homem negro

Atina a faca sua afoita ponta um tanto

Remédio e vício para assim findar o encanto

Quebranto que consome sua vida em logro

 

Usando a veste pobre, encobre seu ato escuso

Remorso torna intenso o peso do segredo

Ação funesta feita —afeita— prossegue obtuso

 

Forçando sua face, pávida e ímpia, em medo

Enxuga rios dele mesmo e padece iluso

Enquanto gotas fazem dessa dor enredo

 

(2014)

O cinza dos olhos

Por mais que abra os olhos
Ainda vejo quadros sombrios
De um monocromático cinza mórbido
Que lentamente arrasa meus brios

Que tempos são esses,
Onde a vida grita por vida,
Onde a vida grita por morte?

Tinha poucos anos
E eu não a conhecia
Era cheia de enganos
E em silêncio vivia agonia

Mudaram o mundo?
Ou meus olhos mudaram?

É ardil perspectiva
De uma tristeza esquiva
Quando minha alma espia
De outra alma a melancolia

Dividimos o pranto
Que não torna menos pesado
O lânguido manto
Que qualifica nosso fado

Verdadeira enfermidade latente
Essa tenaz desolação
De sentir tamanha dor impertinente
Em meu pequeno coração

E eu sinto como ninguém
E ninguém sente como eu sinto
Dói.

(2012)

Menina de outubro,

Teu novembro chega

Carregado de lágrimas

Imaturas.

O forro rosado

De jambo arraigado

É o tapete tranquilo

Onde repousa teu

Sofrimento

(2015)

 

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