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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

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Poesia

O Erro

Acreditei que os pedaços
Dentro do peito embargados
Serviriam de esmola etérea
Para os amores do porvir

Deixei-me acreditar 

Que os cacos do que fomos
Ainda serviriam
Para provar o que somos
Ao que viesse existir 

Já não há nós
Nem lembranças vivas
Nos ventos mortos
Da memória

Às velas rasgadas do tempo
(Pelos fragmentos finos do erro)
Pouco importa a vontade

Na calmaria latente
Aguardo a balsa atrasada
Com minha passagem já comprada
no guichê da luxúria

 

(12/2016)

Rios turvos

Atenta contra o seu amarelo braço magro

Enchendo de lamúria e alívio o próprio canto

Ardente sangue rubro escorre dele enquanto

Decalca o seu impróprio e amorfo caráter egro

 

Contrária à carne viva e escura do homem negro

Atina a faca sua afoita ponta um tanto

Remédio e vício para assim findar o encanto

Quebranto que consome sua vida em logro

 

Usando a veste pobre, encobre seu ato escuso

Remorso torna intenso o peso do segredo

Ação funesta feita —afeita— prossegue obtuso

 

Forçando sua face, pávida e ímpia, em medo

Enxuga rios dele mesmo e padece iluso

Enquanto gotas fazem dessa dor enredo

 

(2014)

Eu sou cão e você

é a raposa

da estória fantástica

agora ficção realizada

 

o cão destinado

a todas as presas

capturar

a raposa destinada

a jamais ser

capturada

 

paradoxalmente petrificados

meus olhos líticos

condenados
à vê-la
à distância das estrelas

nossa proximidade

negada inexoravelmente

pela ordem celeste

e pelas diretrizes lógicas

que defloram

minha existência e a sua

em concreto

(2013)

Suburbia

O som de poucos carros

Rasgando o ar,

Embalado na melodia triste

De um aspirador de pó distante,

Rege a orquestra

De ganidos agudos

Dos cães que esperam

 

Já se vão as primeiras bicicletas

Carregadas de anseios

E receios

Quando não de água

Ou gás

 

Também já passam das seis

E todos são livres

Para buscar os pães

E perseguir a felicidade

Afogados na negação

E conforto do cárcere

 

O elevar de vozes

Dos mínimos seres condôminos

Abafa-se

Em meio à epifania de vida

Do Subúrbio

 

Prova inegável

De que existe vida submersa

 

(2012)

O cinza dos olhos

Por mais que abra os olhos
Ainda vejo quadros sombrios
De um monocromático cinza mórbido
Que lentamente arrasa meus brios

Que tempos são esses,
Onde a vida grita por vida,
Onde a vida grita por morte?

Tinha poucos anos
E eu não a conhecia
Era cheia de enganos
E em silêncio vivia agonia

Mudaram o mundo?
Ou meus olhos mudaram?

É ardil perspectiva
De uma tristeza esquiva
Quando minha alma espia
De outra alma a melancolia

Dividimos o pranto
Que não torna menos pesado
O lânguido manto
Que qualifica nosso fado

Verdadeira enfermidade latente
Essa tenaz desolação
De sentir tamanha dor impertinente
Em meu pequeno coração

E eu sinto como ninguém
E ninguém sente como eu sinto
Dói.

(2012)

Peleja do desejo

Com que coragem sorrimos
Um ao outro em desafio
À beira de nós mesmos
Segurando a moralidade por um fio

Fino

Como a lascívia agonizante
De Imaginar-te concreta
Descobrir-te serena
Tecendo teu querer
E me concebendo fantasia

Desejando nossas bocas
Devorando à vontade
A vontade das vontades

Entregando meu fogo
Em pira rasa
Queimando tua pele
Contra meu corpo
Perdendo-me em tuas águas
Te amando em tormenta
E desaparecendo com o vento

(12/2016)

()

Desconheço a vida

E busco certezas

Nas dimensões incertas

 

Minha voz é sempre

Vaga no silêncio

 

Eu sou deus de deus

Senhor do Vazio

 

Vossa Inexistência,

Que descalça contra o vento

Caminha sobre lixas

Fazendo do lamento

Cópia torta da

Cópia da cópia

 

Eu nego,

Tudo ou nada

É tudo e nada

Quem me busca

Se perde

E acha

 

Eu sou

 

(2013)

O Campo das Possibilidades

 

Depois de muito o encarar
Decidi-me a atravessar
O morro das lamentações

Passado o penoso exercício de subida,
O sinuoso caminho de descida,
Finalmente respirei os ares
Do fantástico Campo das Possibilidades

 

Lá, vi o brilho apagado
Dos futuros em construção
Que poderiam ter sido
E que não foram

Rápidos, por mim passaram
Vários amores desacreditados
Que muito embora fragilizados
Em tal terra não se vão

Crianças aqui nascidas
Riem-se das flores incontidas
Que no Campo desabrocharam

Tantas e tantas flores

E sob um céu arco-íris
Voam tristes
Erros inconcebidos
Que pelo medo confundidos
Com risco inconsequente

À Ignácio de Loyola Brandão

Eis que a orelha

(de um certo renegado de mão furada)

Passou a crescer anomalamente.

 

Ao menos alimento,

(por um bom tempo)

Não faltou
àqueles debaixo da ponte.

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