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O OUTRO QUE É

Na poesia eu não sou, Eu é um outro

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Ser

Suburbia

O som de poucos carros

Rasgando o ar,

Embalado na melodia triste

De um aspirador de pó distante,

Rege a orquestra

De ganidos agudos

Dos cães que esperam

 

Já se vão as primeiras bicicletas

Carregadas de anseios

E receios

Quando não de água

Ou gás

 

Também já passam das seis

E todos são livres

Para buscar os pães

E perseguir a felicidade

Afogados na negação

E conforto do cárcere

 

O elevar de vozes

Dos mínimos seres condôminos

Abafa-se

Em meio à epifania de vida

Do Subúrbio

 

Prova inegável

De que existe vida submersa

 

(2012)

O cinza dos olhos

Por mais que abra os olhos
Ainda vejo quadros sombrios
De um monocromático cinza mórbido
Que lentamente arrasa meus brios

Que tempos são esses,
Onde a vida grita por vida,
Onde a vida grita por morte?

Tinha poucos anos
E eu não a conhecia
Era cheia de enganos
E em silêncio vivia agonia

Mudaram o mundo?
Ou meus olhos mudaram?

É ardil perspectiva
De uma tristeza esquiva
Quando minha alma espia
De outra alma a melancolia

Dividimos o pranto
Que não torna menos pesado
O lânguido manto
Que qualifica nosso fado

Verdadeira enfermidade latente
Essa tenaz desolação
De sentir tamanha dor impertinente
Em meu pequeno coração

E eu sinto como ninguém
E ninguém sente como eu sinto
Dói.

(2012)

()

Desconheço a vida

E busco certezas

Nas dimensões incertas

 

Minha voz é sempre

Vaga no silêncio

 

Eu sou deus de deus

Senhor do Vazio

 

Vossa Inexistência,

Que descalça contra o vento

Caminha sobre lixas

Fazendo do lamento

Cópia torta da

Cópia da cópia

 

Eu nego,

Tudo ou nada

É tudo e nada

Quem me busca

Se perde

E acha

 

Eu sou

 

(2013)

O chão e corredor

cansado
o chão encara
o corredor caído

depois de tantos passos
o suor tornara-se água
pura e fria
que escorre sobre sua superfície
como que batizando um terreiro de pecados
revolvendo o pudor à terra maltratada
pelos passos pesados
de um homem mais leve
(como se o passado houvesse passado nas passadas
para os prosaicos fundamentos terrestres)

o corredor
cansado e caído
também encara o chão
agradecendo-o
por não o ter abandonado
(mesmo sem querer)
quando
em momento que desamparado em suas aflições
esgotado em suas faculdades

em momento de problema insolúvel

concluíra
que a solução cabível
requeria alguns quilômetros

Correu

o chão o acompanhou
ainda que corresse com o vento
—mesmo ao atravessar o céu e suas nuvens—
sempre abaixo dele
para que suas mãos sujas
(embora rudes)
fossem o amparo
da mais terrível queda
da qual toda vida é passível

porque
conquanto caísse na mais profunda cavidade da Terra
ou se o cúspide da lança mais afiada fosse seu destino irremediável
sua mais extensa desgraça
sempre foi

o ermo

(2013)

Nota histriônica

Eu sou o mocinho
De um filme particularmente longo.
Que em momentos aparenta ser uma fina tragédia,

Senão esfacela-se em uma comédia de gosto duvidoso.
Devo ser palhaço de cinema.
Procuro câmeras
E não as vejo.
Às vezes espero que surjam nas esquinas,
E definam a próxima cena,

A próxima piada.

Mas o empenho mediúnico
Em manter o sigilo das filmagens
Supera minhas capacidades de detetive hollywoodiano.
Sigo em minhas trabalhosas trapalhadas.
Chorando de rir,
Rindo de chorar,
Onde alegria e pranto se disfarçam,
Enquanto os créditos não sobem.

Aquilo que dizem dos palhaços:
Os mais engraçados, são também os mais tristes.

(2011)

 

Wer

Vejam que falo,
Ou divago
(vagando),
Geralmente sobre:
Amor;
Felicidade;
Existência;

E amor.

Pois sou poeta de ausências,
E reclamo o que me falta.

Vivo uma vida
De uísque
E marshmallows,
De inexistência
E incoerência,
Em que sempre restam
Menos de um dedo de um copo.

Quem me dera ser
Quem queria:

Macio,
Maduro,
Provado (e aprovado),
E premiado.

Como um uísque americano.

 (2012)

 

Grande

Fora do reduto de tristezas,
Entre os automóveis
E os sóis do asfalto,
Uma mulher
Grande de idade,
E de enfermidades da idade,
Chora por sua vida
De grande e triste.

Vida triste
De ser carregada em vida.

Seu orgulho,
Em soluços
E Aos poucos,
Dá lugar à conformidade,
Na tristeza de esperar
A pequenez e leveza derradeiras.
De ser carregada,
Finalmente,

Para fora,

Para longe,
Nas mantas negras do anjo.

(2011)

 

O Outro que É

Não há nada mais pessoal e universal que o sofrimento

O sofrimento é único.

“Com efeito, EU é outro. Se o cobre acorda clarim, a culpa não é dele. Para mim, é evidente: assisto à eclosão do meu pensamento: fito-o, escuto-o: dou com o golpe de arco no violino: a sinfonia tem um estremecimento nas profundidades ou salta de súbito para a cena. (…) O Poeta faz-se vidente por um longo, imenso e ponderado desregulamento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; procura por si próprio, esgota em si próprio todos os venenos para só lhes guardar as quintessências. Inefável tortura em que precisa de toda a fé, de toda a força sobre-humana, em que se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito – e o supremo Sábio! – Com efeito, chega ao desconhecido! Visto ter cultivado a alma, já rica, mais que ninguém! Chega ao desconhecido; e quando, apavorado, acabasse por perder a inteligência das suas visões, tê-las-ia já visto! Que rebente no seu salto pelas coisas inauditas e inúmeras: outros virão, horríveis trabalhadores; começarão pelos horizontes em que o outro tombou!”

Trecho de Lettre du Voyant/ Carta do Vidente
(Arthur Rimbaud à Paul Demeny, 15 de maio de 1871).

A voz que o traduz é única.

O lamento, o júbilo,  o choro,
Não é meu, ou do poeta francês,
É nosso.
Somos nós.

Eu não sou

EU é um outro

O Outro que é

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